Escala de Coma de Glasgow: como avaliar e pontuar passo a passo
A Escala de Coma de Glasgow é o instrumento mais usado no mundo para medir o nível de consciência de forma rápida, objetiva e reprodutível. Dominar sua aplicação é essencial na avaliação neurológica do técnico, do graduando e do concurseiro — e é um dos temas mais cobrados tanto no plantão quanto nas provas.
O que é a Escala de Coma de Glasgow
A Escala de Coma de Glasgow (ECGl), do inglês Glasgow Coma Scale (GCS), foi criada em 1974 por Teasdale e Jennett para padronizar a avaliação do nível de consciência. Ela quantifica a resposta do paciente a estímulos em três domínios — ocular, verbal e motor — permitindo comparar avaliações feitas por profissionais diferentes e, principalmente, acompanhar a tendência ao longo do tempo.
A versão revisada em 2014 (Teasdale, estrutura padronizada de aplicação) atualizou a terminologia — passou a falar em estímulo de "pressão" em vez de "dor" — e reforçou o registro dos três componentes de forma separada. É essa versão que orienta os protocolos de emergência e a avaliação neurológica de rotina.
Os três parâmetros da Escala de Glasgow
A pontuação total é a soma dos três parâmetros abaixo. Cada um tem nota mínima 1 — por isso o menor resultado possível é 3, e não 0.
| Parâmetro | Melhor resposta | Pontos |
|---|---|---|
| Abertura ocular (O) | Espontânea | 4 |
| Ao som (ao estímulo verbal) | 3 | |
| À pressão (ao estímulo doloroso) | 2 | |
| Ausente | 1 | |
| Resposta verbal (V) | Orientada | 5 |
| Confusa | 4 | |
| Palavras inapropriadas | 3 | |
| Sons incompreensíveis | 2 | |
| Ausente | 1 | |
| Resposta motora (M) | Obedece a comandos | 6 |
| Localiza a pressão | 5 | |
| Flexão normal (retirada) | 4 | |
| Flexão anormal (decorticação) | 3 | |
| Extensão (descerebração) | 2 | |
| Ausente | 1 |
Quando um parâmetro não pode ser avaliado — por exemplo, olhos edemaciados ou paciente intubado —, registre NT (não testável) em vez de atribuir nota 1 de forma arbitrária.
Entendendo a resposta motora
A resposta motora é o parâmetro de maior peso prognóstico e o que mais gera dúvida. Use sempre a melhor resposta dos membros superiores:
- Localiza (5): o paciente leva a mão acima da clavícula em direção ao ponto do estímulo.
- Flexão normal / retirada (4): retirada rápida do membro, com abdução do ombro, afastando-se do estímulo.
- Flexão anormal / decorticação (3): flexão lenta, com o braço aduzido junto ao tórax.
- Extensão / descerebração (2): extensão do cotovelo com rotação interna do braço — indica lesão mais grave, geralmente de tronco encefálico.
Como aplicar a escala passo a passo
A versão 2014 organiza a avaliação neurológica em quatro etapas — verificar, observar, estimular e pontuar. Siga sempre nesta ordem:
- Verifique fatores que interferem no resultado: sedação, intubação, trauma de face ou de olhos, surdez, afasia prévia ou barreira de idioma.
- Observe o paciente em repouso, sem tocá-lo: já há abertura ocular espontânea? Fala espontânea? Movimentos espontâneos?
- Estimule de forma crescente. Primeiro um estímulo sonoro (fale e depois solicite em voz alta). Se não houver resposta, aplique estímulo de pressão — ponta do dedo, trapézio ou incisura supraorbitária.
- Pontue a melhor resposta observada em cada um dos três parâmetros.
- Registre os componentes separadamente e o total. Exemplo: O4 V5 M6 = 15. Anote também o horário e reavalie para acompanhar a tendência.
Como somar e classificar a gravidade
Some os três valores e classifique a gravidade. A referência clássica é o traumatismo cranioencefálico (TCE), mas a escala é usada em qualquer causa de rebaixamento do nível de consciência.
| Pontuação total | Classificação | Observação clínica |
|---|---|---|
| 15 | Consciente / normal | Orientado, obedece a comandos. |
| 13 a 15 | Leve | Vigilância; risco de piora não está descartado. |
| 9 a 12 | Moderado | Monitorização contínua e reavaliação frequente. |
| 3 a 8 | Grave (coma) | ≤ 8 indica avaliar proteção de via aérea (IOT). |
| 3 | Pior escore possível | Sem resposta em nenhum dos parâmetros. |
Situações especiais
Paciente intubado ou traqueostomizado
A resposta verbal não é testável. Registre NT ou VT (por exemplo, O4 VT M6) e deixe claro no prontuário que o componente não pôde ser avaliado — não force a nota 1 na soma.
Componentes não testáveis (NT)
Olhos edemaciados ou enfaixados impedem avaliar a abertura ocular; sedação e bloqueio neuromuscular comprometem a resposta motora. Nesses casos, documente NT e a causa.
Escala de Glasgow pediátrica
Em lactentes e crianças que ainda não falam, usa-se a escala de Glasgow modificada (pediátrica), que adapta a resposta verbal (choro, irritabilidade) e a motora à faixa etária.
Glasgow-Pupilas (GCS-P)
Alguns protocolos somam a avaliação da reatividade pupilar: subtrai-se do total 1 ponto para cada pupila arreativa (0, 1 ou 2 pontos), refinando o prognóstico em neurointensivismo.
Erros mais comuns na avaliação neurológica
- Registrar apenas o total, sem os três componentes (O, V, M).
- Confundir flexão anormal (3) com extensão (2) — a extensão é mais grave.
- Anotar nota 1 no componente que, na verdade, é não testável (NT).
- Pular o estímulo sonoro e ir direto ao doloroso, subestimando a resposta.
- Não reavaliar: a ECGl vale pela tendência, não por uma única medida.
Perguntas frequentes
A Escala de Glasgow vai de 0 a 15?
Não. O menor valor possível é 3 e o maior é 15, porque cada um dos três parâmetros tem pontuação mínima 1. Não existe "Glasgow 0", "1" ou "2".
O que significa Glasgow menor ou igual a 8?
Indica coma e rebaixamento grave do nível de consciência. É o principal critério para considerar proteção de via aérea (intubação orotraqueal), já que há risco de perda dos reflexos de proteção e broncoaspiração.
Como pontuar a resposta verbal de um paciente intubado?
A resposta verbal fica não testável. Registre "NT" ou "VT" (por exemplo, O4 VT M6) e documente a razão; não atribua nota 1 arbitrariamente ao somar.
Qual a diferença entre flexão anormal e extensão?
A flexão anormal (decorticação, 3 pontos) é a flexão lenta do braço em direção ao tórax. A extensão (descerebração, 2 pontos) é o braço estendido, com rotação interna e punho fletido, e sinaliza lesão mais grave, geralmente de tronco encefálico.
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