Punção venosa periférica: técnica e passo a passo seguro
A punção venosa periférica é um dos procedimentos mais realizados na enfermagem — e um dos que mais gera complicações quando feito sem técnica. Este guia traz o passo a passo seguro do acesso venoso periférico, da escolha do calibre à fixação, seguindo boas práticas do COFEN, da ANVISA e das referências clássicas como o Potter & Perry.
Higienize as mãos → confira a prescrição e identifique o paciente com dois identificadores → escolha uma veia distal no membro não dominante → aplique o garrote 7 a 10 cm acima → faça antissepsia com clorexidina alcoólica e deixe secar → insira o cateter com o bisel para cima a 15–30° → veja o refluxo, avance o cateter e recue a agulha → solte o garrote, conecte e teste com SF 0,9% → fixe com filme transparente e registre.
O que é a punção venosa periférica
A punção venosa periférica é a técnica de inserção de um cateter em uma veia superficial dos membros (geralmente dos membros superiores) para estabelecer um acesso venoso periférico. Esse acesso permite administrar soluções, medicamentos e hemoderivados, além de coletar sangue. É um procedimento realizado pela equipe de enfermagem dentro das competências previstas pelo COFEN, com técnica asséptica (técnica limpa com barreiras adequadas).
O dispositivo mais usado é o cateter sobre agulha (tipo Jelco/Abocath), em que o cateter flexível envolve uma agulha metálica que serve apenas para a punção e é descartada logo após o posicionamento.
Indicações: quando puncionar
- Hidratação e reposição de fluidos e eletrólitos.
- Administração de medicamentos por via intravenosa, contínua ou intermitente.
- Transfusão de hemocomponentes e hemoderivados.
- Coleta de amostras de sangue para exames.
- Administração de contraste para exames de imagem.
Materiais necessários
- Bandeja limpa e antisséptico para a bancada;
- Cateter sobre agulha no calibre adequado (ver tabela abaixo);
- Garrote (torniquete);
- Antisséptico: clorexidina alcoólica > 0,5% (1ª escolha) ou álcool a 70%;
- Gaze ou algodão estéril;
- Luvas de procedimento;
- Equipo/dânula ou dispositivo com conector valvulado (extensor);
- Seringa com solução fisiológica (SF 0,9%) para flush/teste de permeabilidade;
- Película/filme transparente semipermeável estéril para fixação;
- Etiqueta de identificação e caneta;
- Coletor de material perfurocortante.
Escolha do calibre do cateter
Prefira o menor calibre capaz de atender à terapia proposta: quanto maior o número do gauge (G), mais fino é o cateter. Cateteres finos causam menos trauma endotelial e menos flebite mecânica.
| Calibre | Cor | Indicação principal |
|---|---|---|
| 14G | Laranja | Grandes volumes, trauma e cirurgias de grande porte. |
| 16G | Cinza | Cirurgia, trauma e reposição rápida de volume. |
| 18G | Verde | Hemoderivados, cirurgia e grandes volumes. |
| 20G | Rosa | Uso geral em adultos: infusões e transfusões de rotina. |
| 22G | Azul | Adultos com veias finas, idosos, quimioterapia e pediatria. |
| 24G | Amarelo | Neonatos, pediatria, idosos e veias muito frágeis. |
Escolha da veia e do local
Comece pelas veias mais distais e vá subindo se necessário — isso preserva os sítios proximais para futuras punções. Dê preferência ao membro não dominante e a veias retas, palpáveis, de bom calibre e afastadas de articulações.
Veias mais utilizadas
- Rede venosa dorsal da mão (veias metacarpais dorsais) — primeira escolha para preservar o braço.
- Veia cefálica — no antebraço, calibrosa e estável.
- Veia basílica — face medial do antebraço.
- Veia mediana cubital / fossa antecubital — ótima para coleta, mas evite para infusões contínuas por ficar sobre a dobra do cotovelo.
Locais que você deve evitar
- Membro com fístula arteriovenosa, do lado de mastectomia ou com esvaziamento ganglionar;
- Membro com linfedema, paresia/plegia ou trombose;
- Áreas de flexão, veias esclerosadas, tortuosas ou já puncionadas repetidamente;
- Pele com lesão, infecção, hematoma, tatuagem extensa ou queimadura.
Passo a passo seguro da punção venosa periférica
- Confira a prescrição e reúna todo o material, verificando validade e integridade das embalagens.
- Higienize as mãos e identifique o paciente com dois identificadores; explique o procedimento e obtenha o consentimento.
- Posicione o paciente confortavelmente, exponha e apoie o membro em uma superfície plana.
- Aplique o garrote cerca de 7 a 10 cm acima do local escolhido. Ele deve comprimir as veias, mas manter o pulso distal palpável.
- Selecione e palpe a veia. Não deixe o garrote apertado por mais de 1 a 2 minutos.
- Higienize as mãos novamente e calce as luvas de procedimento.
- Faça a antissepsia com clorexidina alcoólica (ou álcool 70%), com fricção, e deixe secar espontaneamente. Não assopre, não abane e não volte a palpar a veia após a antissepsia.
- Tracione a pele abaixo do ponto de punção para estabilizar a veia.
- Insira o cateter com o bisel para cima, em ângulo de 15 a 30°, em direção ao fluxo venoso.
- Ao ver o refluxo de sangue na câmara, reduza o ângulo, avance mais 1–2 mm e progrida o cateter sobre a agulha até a base.
- Solte o garrote, faça compressão digital sobre a veia acima da ponta do cateter e retire a agulha, descartando-a imediatamente no coletor de perfurocortante — sem reencapar.
- Conecte o equipo/extensor e teste a permeabilidade com flush de SF 0,9%, observando se há refluxo, dor, edema ou resistência.
- Fixe com película transparente estéril e identifique o curativo com data, hora, calibre e nome/COREN do responsável.
- Descarte o material, higienize as mãos e registre o procedimento no prontuário.
Cuidados após a punção e manutenção do acesso
- Inspecione o sítio a cada plantão à procura de dor, calor, rubor, edema, endurecimento ou refluxo.
- Mantenha o cateter permeável com flush de SF 0,9% antes e após as medicações.
- Troque o curativo sempre que estiver solto, sujo ou úmido, mantendo técnica asséptica.
- Higienize as mãos e desinfete os conectores antes de manipular o sistema.
- Remoção do cateter: a ANVISA orienta retirar quando clinicamente indicado (sinais de complicação ou fim da terapia), e não mais obrigatoriamente a cada 72 a 96 horas.
Complicações mais comuns
As principais são infiltração (extravasamento de solução não vesicante), extravasamento (de solução vesicante), flebite (mecânica, química ou infecciosa), hematoma, obstrução e infecção da corrente sanguínea. A flebite é avaliada por uma escala padronizada:
| Grau | Sinais e sintomas | Conduta |
|---|---|---|
| 0 | Sem sinais ou sintomas. | Manter e observar. |
| 1 | Eritema no local, com ou sem dor. | Remover o cateter. |
| 2 | Dor com eritema e/ou edema. | Remover o cateter. |
| 3 | Dor, eritema, endurecimento e cordão venoso palpável. | Remover e avaliar tratamento. |
| 4 | Grau 3 + cordão venoso > 2,5 cm e/ou drenagem purulenta. | Remover, avaliar e notificar. |
Perguntas frequentes
Qual o ângulo correto para a punção venosa periférica?
Insira o cateter com o bisel para cima, em ângulo de 15 a 30° em relação à pele. Assim que houver refluxo de sangue na câmara, reduza o ângulo, avance o cateter sobre a agulha e recue a agulha.
Qual antisséptico usar?
A primeira escolha é clorexidina alcoólica acima de 0,5%; o álcool a 70% é alternativa. Friccione o local e deixe secar espontaneamente — nunca assopre nem abane, e não volte a palpar após a antissepsia.
Por quanto tempo o garrote pode ficar apertado?
O menor tempo possível: idealmente menos de 1 minuto e nunca acima de 2 minutos. O excesso causa hemoconcentração, desconforto e altera resultados na coleta de sangue. O garrote deve comprimir a veia, mas manter o pulso distal palpável.
De quanto em quanto tempo trocar o cateter periférico?
A ANVISA recomenda remover quando clinicamente indicado — dor, eritema, edema, infiltração, obstrução ou suspeita de infecção — e não mais obrigatoriamente a cada 72 a 96 horas. Avalie o sítio a cada plantão.
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